O assunto “Cala a Boca Galvão”, já velho em tempos de twitter, continua repercutindo no mundo inteiro, e ganhou as páginas do El País e do The New York Times. Por um lado, temos uma parcela da população rindo da brincadeira, enquanto do outro, questiona-se o quanto o nosso país (e o mundo!) mudariam se todos nos engajássemos com o mesmo afinco para assuntos mais sérios.

Mas não há razão para ranhetismo. O fenômeno “Cala boca Galvão” não foi apenas produto do bom-humor (levado aos extremos, é verdade) da twitosfera brasileira, mas também fórmula feita que pegou direitinho os bem-intencionados não-falantes do português. Muita gente ri dos “gringos” agora, sem saber que cai na mesma brincadeira todos os dias.
Na TV, carros andam ao som de uma voz suave enquanto soltam flores por uma cidade colorida e desenhada à mão. Bancos estão preocupados com a nossa felicidade, empresas de fundo de quintal fazem produtos de qualidade duvidosa, embalados em frases feitas que sempre terminam com “a natureza agradece”. Executivos ripongas falam de sua “missão” e “valores” em powerpoint, enquanto exploram seus empregados antes de sair pela cidade em suas SUVs.
Se o seu banco prega a sustentabilidade, e te envia pelo correio extratos e talões de cheque em papel reciclado, ele já está fazendo tudo errado. Qualquer um que diz que é “100% sustentável, limpo” ou o que for, está mentindo, pois é absolutamente impossível viver numa cidade humana sem deixar rastro. Da água tratada que tomamos à luz que utilizamos, tudo tem sem impacto ambiental. Qualquer produto, ainda que orgânico, que venha numa embalagem, ainda que reciclável, precisa de transporte e armazenamento.
Isso não quer dizer que estamos num beco sem saída. Dentre tantos oportunistas, há sempre os que querem colaborar verdadeiramente, e o discernimento do público é sua arma mais importante. Por isso, questione, pesquise, tuite, cheque os balanços das empresas ou o preço que elas pagaram para ter aquela página na revista, dizendo quantas árvores foram plantaras. Você verá que o engajamento ambiental é um argumento muitas vezes tão vazio (e eficaz) quanto o “Cala boca Galvão”. Mas nem de longe é tão engraçado.